"Mas o seu espírito não mudou"

Pintura: "Circe and the Companions of Ulysses" (1871), Briton Riviere


"Depois que lhes deu a poção e eles a beberam,
bateu-lhes com a vara, para logo os encurralar nas pocilgas.
Eles tinham cabeças, voz, cerdas e aspecto de porcos,
mas o seu espírito não mudou: permaneceu como era."


Trecho da Odisseia, de Homero.
Tradução por Frederico Lourenço.
Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
Página 285.



"Eu poderia ter lançado uma ilusão sobre a ilha para mantê-los afastados, tinha o poder para isso. Poderia cobrir minhas praias suaves com uma imagem de rochas afiadas e turbilhões, de penhascos escarpados e impossíveis de escalar. Eles seguiriam em frente e eu nunca precisaria vê-los, nem ninguém mais, outra vez.

Não, pensei. É tarde demais para isso. Eu fui encontrada. Deixe-os ver o que sou. Deixe-os aprender que o mundo não é como pensam."



Trecho de Circe, de Madeline Miller.
Tradução por Isadora Prospero.
Planeta, 2019.
Posição (e-book) 2,861.


"Depois que eu transformava uma tripulação, eu os observava se atrapalhando e chorando no chiqueiro, caindo uns sobre os outros, estúpidos de horror. Eles odiavam tudo: seu novo corpo voluptuoso, seus pés fendidos e delicados, suas barrigas inchadas se arrastando na lama da terra. Era uma humilhação, uma degradação. Eles doíam de saudades por suas mãos, aqueles apêndices que os homens usam para mitigar o mundo.

Vamos, eu dizia a eles, não é tão ruim. Vocês deviam apreciar as vantagens de um porco. Escorregadios de lama e velozes, eles são difíceis de capturar. Próximos ao chão, não podem ser derrubados com facilidade. Não são como cachorros, não precisam do seu amor. Podem prosperar em qualquer lugar, comendo qualquer coisa, restos e lixo. Parecem estúpidos e embotados, o que desarma seus inimigos, mas são inteligentes. Vão se lembrar do seu rosto.

Eles nunca escutavam. A verdade é que homens dão péssimos porcos."


Trecho de Circe, de Madeline Miller.
Tradução por Isadora Prospero.
Planeta, 2019.
Posição (e-book) 2,919.

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Criadora

Larissa Fonseca e Silva, 1998. Nascida em Caldas, no sul de Minas Gerais, crescida dentre livros e montanhas. Mestra em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). "Crio com a ponta dos dedos, no raio do sol vejo a magia da poeira e sei que há sentido no decompor das coisas pois até os resquícios dançam." Registro e guardo aqui.