Chuva e dissolução
Se o simbolismo mítico da chuva é o da fertilidade, a literatura, com frequência, nos apresenta o oposto: especialmente dentro de uma lógica ocidental e urbana, desligada dos ciclos da natureza, a chuva se liga ao pessimismo, à melancolia e à morte. Trata-se da chuva como dissolução. É o que vemos, por exemplo, neste poema¹ de Camilo Pessanha, no qual a voz poética faz da queda da água a imagem do seu próprio desejo suicida:
Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer…
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.
Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.
Apesar da sugestão do salto, não temos, aqui, uma queda brusca, e sim uma realidade que, lentamente, vai se embaçando, apagando, submergindo. Pela sonoridade encantatória da chuva e do poema — aliás, uma canção² —, temos ainda uma camada adicional de sentido: a autodissolução³ imaginada vai se tornando sono, esse irmão mais brando da morte⁴.
Demais entradas do commonplacebook estão aqui. Imagem: contemplação da chuva pela janela da mansarda, morada temporária em Lisboa (Portugal). Dia 06 de abril de 2026. Notas: 1 No livro Clepsydra, publicado em 1920. O poema aqui reproduzido (sem a epígrafe de Verlaine) segue a edição de Barbara Spaggiari. 2 Sobre os parâmetros para essa definição, cf. Lima, 2017. 3 Lembra-nos Tiago Filipe Clariano (2019, p. 104) que há, na obra de Camilo Pessanha, "uma obsessão geral com o conceito de morte e específica na morte por afogamento ou em encontrar o lugar do descanso final debaixo de água". Ainda conforme o pesquisador, o próprio título, Clepsydra, nos coloca dentro desse instrumento que torna líquida a contagem do tempo. Acrescenta-se, com Francisco Ferreira de Lima (2017, p. 133), que a morte almejada pelo poeta seria, precisamente, a da dissolução nos elementos naturais, com destaque para o aquático: ele desejaria "ultrapassar a fronteira do mundo, triste e vão, das formas, e poder habitar enfim o reino do informe, onde tudo está ainda por ser". 4 Hypnos e Thanatos, a propósito, têm uma bela representação em "Sleep and his half-brother Death" (1874), pintura de John William Waterhouse. Referências: CLARIANO, Tiago Filipe. Como evitar naufragar no tempo? O naufrágio na Clepsydra de Camilo Pessanha. Limite: revista de estudios portugueses y de la lusofonía, Extremadura, n. 13.1, p. 83-106, 2019. LIMA, Francisco Ferreira de. A canção em Camilo Pessanha. In: LIMA, Francisco Ferreira de. O real e o avesso: o mar em Camões e Pessoa & outros temas. Volume 2. Salvador: Rio do Engenho, 2017. E-book. p. 121-144. PESSANHA, Camilo. Meus olhos apagados. In: PESSANHA, Camilo. Clepsidra. Edição de Barbara Spaggiari. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2014. E-book. p. 114.