Apascento os pensamentos. Melhor: vigio-os, atenta, enquanto esfrego a roupa que se acumulou no cesto. Um texto é um pequeno cercado de ovelhas, um perímetro que julgamos controlar, uma atividade que em algum momento da história se tornou intelectual e privada como uma estaca que se finca num terreno e se diz: é meu. Não é... Há muito que o original, pastor primeiro, morreu e deixou de herança um só novelo, passado de geração em geração. Tricotando pensamentos, a meio do caminho tenho outra ideia, desmanchando o que já fiz para aproveitar a lã reaproveitada há séculos. Lavo meus casacos de inverno escrevendo em voz alta, tecendo coerências temporárias ainda que úteis por agora. Mas me distraí das ovelhas — já há muito, percebo, fugidas para outros textos.