A "opulenta filha do Sol"

"[...] Brisas favoráveis sopram ao aproximar-se a noite; a lua, de brancura brilhante, facilita a viagem; o mar resplandece sob sua trêmula luz. Costeiam as margens próximas da terra de Circe, na qual a opulenta filha do Sol faz ressoar com assíduos cantos aqueles bosques inacessíveis, e, no seu palácio soberbo, brilha, a fim de espalhar luz noturna, o cedro odorífero, condensando as tênues telas com o crepitante pente. Daquele local se ouvem os gemidos e os gritos de raiva de leões sacudindo suas cadeias e rugindo tardiamente dentro da noite; ouvem-se os cerdosos javalis arruar nas suas jaulas, bramar os ursos e ulular os lobos de talhe gigantesco. Eram homens que Circe, a feroz deusa, com suas ervas mágicas transformara em feras."


Trecho da Eneida, de Virgílio.
Tradução por Tassilo Orpheu Spalding.
Nova Cultural, 2002.
Página 179.

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Criadora

Larissa Fonseca e Silva, 1998. Nascida em Caldas, no sul de Minas Gerais, crescida dentre livros e montanhas. Mestra em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). "Crio com a ponta dos dedos, no raio do sol vejo a magia da poeira e sei que há sentido no decompor das coisas pois até os resquícios dançam." Registro e guardo aqui.