são os pássaros que retornam
para dentro de nós.
Os fantasmas, descobri,
gostam de narrar histórias
bem na hora de eu dormir.
Fantasmas tropeçam e fazem barulho
não sei se por descuido
ou se por carência.
Um devaneio é um repouso dos ossos vivos: uma sepultura mansa e arejada no coração de uma montanha que se inventa. Uma montanha que se constrói aos poucos, mentalmente, em meio à azáfama dos minutos que se atropelam. Dos minutos que se matam. Dos que precisam de uma sepultura mansa e arejada — no coração da montanha que ajudam a inventar.
Chuviscos
faíscam
contra a janela
e acendem
em mim
a ânsia do vento
(como se eu não tivesse raízes sólidas
ou não soubesse a dor da pancada).
Apascento os pensamentos. Melhor: vigio-os, atenta, enquanto esfrego a roupa que se acumulou no cesto. Um texto é um pequeno cercado de ovelhas, um perímetro que julgamos controlar, uma atividade que em algum momento da história se tornou intelectual e privada como uma estaca que se finca num terreno e se diz: é meu. Não é... Há muito que o original, pastor primeiro, morreu e deixou de herança um só novelo, passado de geração em geração. Tricotando pensamentos, a meio do caminho tenho outra ideia, desmanchando o que já fiz para aproveitar a lã reaproveitada há séculos. Lavo meus casacos de inverno escrevendo em voz alta, tecendo coerências temporárias ainda que úteis por agora. Mas me distraí das ovelhas — já há muito, percebo, fugidas para outros textos.
É o vento que abre as cortinas
ou são os fantasmas desta casa
que precisam de ar?
Tenho feito tantas pausas
que não sei mais como chamo
os rápidos intervalos
entre uma pausa e outra.
Preciso de uma pausa
para que eu ache uma palavra.
Preciso de uma pausa para que eu ache
essa nova palavra
(em que também vou repousar).

Aprecio,
pelo débil instante em que vive,
o poema de asas frágeis
― que fulgura, matutino,
dentre cortinas que balançam;
o poema pousado na cabeceira
arrepiado
recém-alevantado
de um travesseiro recheado de onirismos;
o poema que cai,
fantasmático,
não se vê onde.
Um poema suposto.
Partes de fruta podre tornam podre toda a fruta. Amputações não salvam a alma que a fruta nem deve ter — mas eu com suposta alma e decerto cinza, com partes mais ou menos brancas, mais ou menos pretas, mais ou menos podres, tive pena: a pera atirada ao lixo, rápida a queda. Na fruteira, de aparência límpida, triunfavam maçãs.