Chuva e opressão
Outra vertente de simbolismo melancólico da chuva sai do aspecto individual e passa ao social: é a que se manifesta, por exemplo, no romance O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Temos, aqui, o heterônimo retornando a Lisboa em 1936: após 16 anos de exílio no Brasil e o falecimento recente do seu criador e amigo, Fernando Pessoa. Encontra uma cidade acanhada, empobrecida e apática sob a ascensão fascista de Salazar ― uma cidade em que chove o tempo todo. Em suma, pelo clima político e atmosférico: é a capital oprimida de um Portugal distante da epopeia lusíada, de águas heroicas, com que o regime salazarista tentava se fantasiar.
Sobre isso, notou a pesquisadora Izabel Margato (2002, p. 146):
Essa Lisboa é “sombria” e “recolhida” sob o peso de “águas turvas” que são o próprio reverso daquelas que espelhavam o céu azul — metáfora de um passado de glórias. Mesmo que esse tempo não tenha existido exata e totalmente “em glórias”, foi o que se pensou por muito tempo como verdadeiro, ou o que por muito tempo passou como verdadeiro. Mas as águas presentes agora são outras. São turvas. E a Lisboa que visitamos nesse romance é a Lisboa silenciada pelas sombras cinzentas de um ano de mau tempo.