Tardes-mantas

As tardes caem suaves como mantas em corpos febris: não se as quer retirar de cima ainda que se saiba necessário para curar a febre; não se quer que o dia acabe ainda que a vida precise seguir. A silhueta dos marrecos corta o azul baço do fim do dia e seus gritos lembram lagoas longínquas... Lagoas por detrás das montanhas das quais não sabemos o que há por trás já que sempre podemos escalá-las, mas raramente o fazemos. O interior das montanhas todos conhecem: às vezes guardam dragões que guardam tesouros de anões míticos, às vezes guardam corações ancestrais batendo já fracos, às vezes guardam apenas o cansaço imenso que é desdobrar um corpo imenso de dentro da terra. A lava no fundo da terra esquentou as montanhas e é o seu mito mais longínquo. As montanhas vivem febris, de febres longínquas. De lagoas longínquas nascem os marrecos que somem logo cortam o horizonte. Tudo é sonho. Tudo é delírio febril.

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Criadora

Larissa Fonseca e Silva, 1998. Nascida em Caldas, no sul de Minas Gerais, crescida dentre livros e montanhas. Mestra em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). "Crio com a ponta dos dedos, no raio do sol vejo a magia da poeira e sei que há sentido no decompor das coisas pois até os resquícios dançam." Registro e guardo aqui.