Apontamentos de botânica e zoologia

23.01.22

Encontraram, sob a tumba de um faraó, flores conservadas por dois mil anos. Libertaram com isso as almas flores, para quem a tumba era o purgatório (que os egípcios nem inventaram).


24.01.22

Às vezes as paredes choram escondido com medo de que as escutemos. (As cigarras de dia e os grilos de noite querem que todos os escutemos porque não é de tristeza que se trata. Ou disfarçam. Talvez disfarcem tristeza sob o chamado à cópula, prevendo, mais do que o gozo, a morte que sempre o segue.)


02.02.22

Sons de morcegos convidam para um espaço mais escuro da noite, como a uma porta que não se vê e, por essa impercepção, não se encontra. Mas existe. E as cavernas são os disfarces temporários dos morcegos.


10.03.22

Lagartas gordas despedaçam árvores e atravessam a rua com a avidez de qualquer pedestre: de lento, basta o casulo.


08.04.22

Às vezes os pássaros vêm à janela nos contar segredos como se os entendêssemos e, antes de nos darmos conta, voam de novo, como se os tivéssemos entendido.


21.06.22

Os urubus são anjos ceifeiros que habitam o céu do entremeio.

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Criadora

Larissa Fonseca e Silva, 1998. Nascida em Caldas, no sul de Minas Gerais, crescida dentre livros e montanhas. Mestra em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). "Crio com a ponta dos dedos, no raio do sol vejo a magia da poeira e sei que há sentido no decompor das coisas pois até os resquícios dançam." Registro e guardo aqui.