Parágrafo sobre um piquenique (ou barcos, ou mastros)

Que dividamos os sonhos como os pratos de comida que fizemos com carinho e trouxemos ao fim de tarde. O sol vai baixo, mas ainda não se pôs. As formigas, se bobearmos, comem tudo o que veem (tais os cupins ao barco que afunda). Nada está a salvo, nada, mas com isso é que nos cabe salvar o que há (ainda que o que haja seja o pouco que sobrou ou o corpo que sobrou e continua a nadar). Viver é compartilhar, viver é também zelar. Estejamos atentos. (Estejamos atentos ao mar, estejamos atentos aos gritos de socorro porque sempre há gritos de socorro e não são cantos de sereias que ouvimos como Odisseu preso ao mastro.) Estejamos atentos pois, se bobearmos, alguém se acerca da toalha e ao redor da toalha finca uma estaca, depois outra estaca, então outra estaca; uma cerca habilmente feita das árvores que há pouco nos forneciam sombras (ou barcos, ou mastros). De repente, atam-nos os braços (não como Odisseu ao mastro), pisam-nos sobre a comida e nos amordaçam. Mais nada de sombras (ou de sonhos, ou de barcos, ou de mastros). De repente as formigas se extinguem e nem se apercebem do fato. Nem sobrará quem diga que um dia houve formigas (ou cante sobre as sereias, contando se eram metade peixe ou metade pássaro).

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Criadora

Larissa Fonseca e Silva, 1998. Nascida em Caldas, no sul de Minas Gerais, crescida dentre livros e montanhas. Mestra em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). "Crio com a ponta dos dedos, no raio do sol vejo a magia da poeira e sei que há sentido no decompor das coisas pois até os resquícios dançam." Registro e guardo aqui.