Uma gaze rasgada

Delicadamente perturbada, como uma gaze que se rasgou em várias partes. Quando me adentro eu me entendo assim: infinitos desses tecidos balançando suaves, à deriva numa atmosfera anoitecida, sugados pelas pontas, no mais escuro dos céus, por uma estrela morta que se recusa a morrer. O som de um buraco negro é um pedido de socorro. Dá para ouvi-lo de qualquer ponto da Terra, ou do corpo. Mas, quando sondo por entre os rasgos, vejo, do outro lado, apenas mais tecidos rasgados. É um convite manso para que eu não me meta. Se eu tentar subir pelos panos como que pelas tranças do mundo, posso descobrir que, em algum momento, a falta de gravidade me impedirá de cair e isso será pior do que ter caído. Ainda pior: posso desenrolar uma múmia que, em contato com o não-ar, permanecerá, eterna e medonha, a me encarar de suas órbitas vazias. E não haverá volta. E a estrela seguirá morta.

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Criadora

Larissa Fonseca e Silva, 1998. Nascida em Caldas, no sul de Minas Gerais, crescida dentre livros e montanhas. Mestra em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). "Crio com a ponta dos dedos, no raio do sol vejo a magia da poeira e sei que há sentido no decompor das coisas pois até os resquícios dançam." Registro e guardo aqui.